terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Curtas e breves

Cenas observadas numa destas manhãs frias de Curitiba entre o Natal e o Ano Novo.
Cidade vazia e silenciosa. Dia cinzento e molhado com relogio marcando 13 hs entre 25 e 30 de Dezembro.
Eu, no transito, pensamentos ao longe, - ah! como valorizei não ter seguido a multidão de vorazes devoradores de asfalto que invariavelmente acabam se aborrecendo e se cansando a caminho do descanso serra abaixo. Como me sinto mais curitibano nestes dias de Curitiba autentica, provinciana e sossegada. 
Em dias diferentes as curiosas cenas que merecem reflexões sociológicas, no mínimo.

Cena 1: Parado no sinaleiro, janelas entreabertas, musica suave e olhar absorto. Emparelha no meu lado esquerdo uma moto com um garupa. Padrão de estilo motoqueiro urbano. Mochilas, capacete cobrindo um boné invertido, calça de brim e fones de ouvido. Os dois se entreolham e me encaram. Adiantam a motocicleta inclinando para a direita me fechando e mais uma vez me encaram, os dois ao mesmo tempo. Segundos de tensão e abre o sinal. A moto sem fazer nenhum sinal de agradecimento arranca e dobra a minha frente cortando meu livre caminho. Queriam fazer somente uma manobra arriscada e ilegal. Somente isso. Passado o susto, lembrei que estava em Curitiba, morta, vazia e segura... E se fosse em São Paulo, Rio de Janeiro ou outra violenta Capital? Percebi que não estou preparado para essas metropoles.

Cena 2: Em frente ao meu trabalho ganha o pão diario um flanelinha que vez por outra chega a dormir na calçada quando "as coisas apertam", segundo me disse certa vez. Já levei algumas vezes o café da manhã para o "vadio"e cheguei até a oferecer um trabalho temporário para carregar umas caixas pesadas, mas de forma convincente recusou alegando "quebra de principios". Entendi! Nestes dias de festa encontrei-o gerenciando vagas publicas com interesses privados e de forma educada me cumprimentou com faz todos os dias. - Bom dia Doutor, está de castigo trabalhando nestes dias de feriado? Mecanicamente respondi algo que naquela circunstância me pareceu, depois, ser demagogo e completamente fora de proposito. Me pareceu um sacarsmo, uma gozação. Respondi: Como foi o teu Natal? Feliz Ano Novo e muita saúde para toda sua família. Ampliei um pouco mais meu angulo de visão e atras dele vi a mulher (?) e uma criança dormindo na calçada. Me senti mal. O café foi reforçado desta vez.


Cena 3: Dentro do carro, me aproximo do sinaleiro na sete de setembro. Região de muitos sem teto, indo e vindo como se o mundo deles fosse restrito àqueles poucos metros de calçada.
Me chamou atenção a dois personagens comuns de idades muito próximas que vinham em sentido contrário um do outro. Parei e fiquei observando como se estivesse assistindo a um trecho de um filme europeu. Um indo de encontro ao outro sem sinal de se conhecerem, dois estranhos. Talvez ele indo para o trabalho, com mochila, fones de ouvido e uma latinha de refrigerante que estava ligada a sua boca por um canudo plástico. Ela, em trajes comum, com mochila, andar apressado indicava que estava atrasada para o compromisso, seja o de apanhar o expresso Campo Comprido x Centenário ou o trabalho de diarista; que é o que eu supunha.
No ponto de choque, no encontro entre os dois corpos sem no entanto se tocarem ela fez um sinal a ele e este lhe entregou a latinha com o canudo. Parados, presos sob o meu olhar indagador, ele ouvindo o pagode da manhã, ela se deliciando com o gole salvador da sua fadiga e eu fazendo um esforço para entender aquela cena. Poderia ser simples se eles fizessem o mínimo sinal de que se conheciam. Mas isto não era verdade. Talvez uma paquera "rapidinha"por que não? Não, não era isso. Nestes rápidos segundos muitas teorias se passaram pela minha cabeça, mas ela tirou o canudo da boca e devolveu ao seu salvador e continuou seu caminho como se fosse uma maratonista em seu "pitstop" programado. Ele sem esboçar movimento de surpresa, sem tirar seu "hadfone" continuou a sua caminhada, sem olhar para traz e para minha surpresa maior devolveu o canudo a sua boca conectado a latinha.
Sociologia me ajude!

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